Cogito, ergo sum

Quando se fala sobre Deus, o que nos vem à mente? Na minha mente, ao menos, surgia um grande conflito. Na Igreja fui instruída a acreditar e, conseqüentemente, a espalhar (eufemismo para ‘evangelizar’) por aí que ele é benevolente e amoroso. Deus é amor, certo? Uma essência divina, transcendente, cósmica. Então, seguindo essa linha de pensamento, Deus é tudo de bom que pode ser oferecido à humanidade. Uma definição curta e grossa.

 

Se olharmos as Escrituras Sagradas sem nenhuma influência de seu dogmas, a história que veremos é a seguinte: houve uma guerra, a famosa guerra nos céus, entre Deus e o arcanjo mais elevado na hierarquia celestial, o belo Lúcifer, o anjo da Luz. Este quis usurpar o trono de Deus e se equiparar a Ele. Por isso, foi expulso do céu, caindo na terra (estrela-da-manhã), levando consigo a terça parte dos anjos. Cresce, assim, a “rivalidade” do príncipe das trevas contra Deus. Com sua inveja, orgulho e maldade infinitos, ele tenta o primeiro casal, fazendo-os cair em pecando, desencadeando a corrupção da alma humana, daí por diante.

 

Deus deu o livre-arbítrio a todos os seres mortais e imortais. “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convêm”. A humanidade caiu em desgraça por ter falta de personalidade e imposição por parte de Adão, por ter deixado Eva seduzi-lo e induzi-lo a comer do fruto proibido; parecem, até mesmo, ingênuos com a situação. (Ou seria um plano divino de Deus permitir que eles fossem tentados, sabendo que eles cairiam na tentação, sabendo que assim os humanos estariam condenados a adoração e provação constantes de fé durante os restos de suas vidas mortais?) Nascemos com e do pecado e, ao longo de nossas vidas, temos de viver acordo com uma ortopráxis (um código de leis e regras) que foi compilada a mais de 4 mil anos, e segui-la para provar que merecemos não ir para o inferno.

 

O cristianismo é uma religião do medo e da miséria. O cristianismo necessita que seus fiéis estejam em constante contato com a desgraça de suas vidas para que, assim, sirva de conforto prometendo uma vida eterna em compensação de suas aflições terrenas.

 

De acordo com o cristianismo, que se auto-intitula a religião correta e verdadeira, afirma que sem os ensinamentos contidos na Bíblia não teremos a salvação de nossas almas. A Bíblia acaba sendo a ligação e o único caminho, de acordo com o dogma cristão, entre Deus e o homem e a salvação de sua alma para a vida eterna.

 

Para obtermos a vida eterna ao lado dEle, temos de viver de acordo com as Escrituras Sagradas, os livros canônicos; não há nenhum outro caminho para se chegar a Deus, e os que procuram outros caminhos são considerados hereges e excomungados. E seguir esse caminho de leis pode-se notar que desde o início ele foi opressor, pois o decálogo (10 mandamentos) é quase todo iniciados com “Não…”.

 

Dessa perspectiva, um cristão, para um budista ou um islâmico, é um herege, porque para eles a verdade absoluta se encontra na sua religião e nas suas regras; então, como podemos provar que a verdade absoluta está em determinada religião? Não podemos, porque não está.

 

Para um cristão a salvação é adquirida da seguinte forma: se o menino (a) se comportar bem e comer todos os legumes que a mamãe mandar, jantando tudinho, ganha um pirulito e mais uma hora de videogame. Sem Bíblia sem passaporte para o céu.

 

Seguindo esta linha, como se chegava a Deus sem a vinda do profetizado Messias Davídico ou sem o Pentateuco como guia? Deus seria tão cruel ou indiferente ao ponto de condenar os precedentes de Adão e Eva? (Ou seriam vocês, leitores, ingênuos o suficiente para achar que Adão e Eva foram o primeiro casal na Terra?) Não é essa imagem que, normalmente, se tem de Deus. Então, o que era preciso fazer? De que modo a vida deveria ser seguida para ser merecedor do Paraíso? Que regras seguir, que sentimentos reprimir, que tipo de vida ter de aceitar para não ser condenado por sua vida terrena e na imortal arder nas labaredas de um fogo eterno?

 

Antes da vinda do Messias e da Lei de Moisés, não havia uma forma única de encontrar Deus. Mesmo adorando o mesmo Deus, YAHWEH, as variedades da experiência religiosa representada pelos devotos podem diferir a ponto, que apenas sob um ponto de vista sociológico mais superficial é que eles podem ser considerados da mesma religião. Eles são mantidos juntos sociologicamente, através de regras e doutrinas, por Deus, porém psicologicamente (experiência individual) estão em planos diferentes. Então o que, ou quem, o cristianismo pensa que é para determinar que é a religião verdadeira e as outras são ilusões de caminhos para Deus? O que pensa que é ao restringir a vida eterna às suas regras? É uma religião castradora e punitiva, com um Deus incoerente e chauvinista; religião essa que somente vingou por tantos anos graças ao baixo intelecto de seus seguidores.

 

Acredito que Deus criou diferentes caminhos para chegar à Ele e nos relacionarmos com Ele e o mundo, diferentes formas de ver a vida. E diferentes religiões para servir diferentes pessoas, propósitos, épocas e países. As doutrinas são apenas caminhos, mas um caminho não é, de maneira alguma, o próprio Deus. O caminho cada um encontra de uma forma, através de sua história e passado encontra o caminho com sua própria visão e com sua própria verdade.

 

Recebi um email certa vez sobre a história de um camaleão, uma daquelas correntes insuportáveis, mas resolvi ler por consideração a pessoa que havia mandado. A história é a seguinte: um homem entrou no bosque e viu um camaleão na árvore. Ele contou aos seus amigos “Vi um lagarto vermelho”, e estava completamente convencido de que era apenas vermelho. Outra pessoa, depois de ter visto a árvore disse “Vi um lagarto verde”, e estava totalmente convencida de era apenas verde. Mas o homem que vivia embaixo da árvore disse “O que vocês dois disseram é verdade, mas o fato é que essa criatura é por vezes vermelha e por vezes verde, às vezes amarela e ás vezes não tem nenhuma cor, depende de quem vê”. Ou seja, a verdade está dentro de nós, nos olhos de quem vê.

 

Tendo isso em mente, voltemos ao livre arbítrio. Conhecendo a natureza “pecadora” ou a profunda inteligência do homem, temos duas opções: o homem pode muito bem ter manipulado os escritos sagrados por interesse próprio ou por acidente; ou os autores usaram de uma linguagem simbólica e codificada não acessível aos olhos de qualquer um, uma alegoria com o intento de que poucos entendessem (parábolas, por exemplo). Os primeiros papas, bispos e padres manipularam o livre arbítrio, que era um dos poucos atrativos do cristianismo, contra ele mesmo: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convêm”; pois bem, posso fazer o que quiser com minha vida na Terra, mas terei de arcar com as conseqüências dos meus atos em minha vida eterna, provavelmente, no inferno. Quem teria o conhecimento e/ou a coragem suficientes para contradizer uma religião e dogma que crescia a cada dia, que dominava o povo cada vez mais, reprimindo qualquer outra doutrina existente? Quem desafiasse, seria morto; textos não autorizados seriam queimados. O cristianismo devia, e deve, servir de mediador e mostrar para o povo que sem a Igreja, não existia ligação direta com Deus; contrariando assim o ensinamento de Jesus, que diz que o Reino dos Céus está dentro de nós.

 

Se Deus criou o mundo, no seu tempo (duração não definida: teoria da evolução)*, e tudo o que nele há, por que teria criado o homem para cair em pecado? Se Deus é onisciente, onipresente e onipotente teria previsto a queda do homem, mas nada fez; assim, então, teria a humanidade no seu controle. Parece um video game: o jogador precisa passar por todas as fases, derrotar todos os seus inimigos e provar seu caráter vencendo o desafio final; e quando vencer esse desafio, o que fica? Nada mais do que uma meta cumprida. Depois de todas as fases serem vencidas e o bandido aniquilado, não teria de provar nada a ninguém e o objetivo pelo qual se dedicou foi tão pequeno e inútil que a sua vida, no caso, meta, foi completamente vazia; a vida foi dedica a seguir um caminho que foi determinado por outrem, um caminho que lhe foi imposto. Seria Deus tão pequeno, tão egoísta? Esse Deus da Bíblia não é o Deus em que creio.

 

Uma pessoa, nos dias atuais, que não obteve o “privilégio” de crer na Bíblia, ter um encontro com Deus ou não segue a doutrina pregada por esta ou aquela igreja, mas que teve uma vida cheia de amor e bondade com o próximo, vai diretamente para o inferno porque não tem a Bíblia como guia de vida? Será mesmo que Deus está tão preocupado com um ou outra doutrina a ser seguida, ao invés de uma vida com princípios, bondade, amor e ajuda ao próximo e as aflições dos nossos corações e enfermidades de nossas almas? Se for esse Deus que a Igreja prega, sou atéia.
A Igreja Cristã fez com que nós nos relacionássemos com Deus por medo e culpa, desde os primórdios co cristianismo primitivo até atualmente. Medo de sofrer as conseqüências de nossa vida terrena em uma eternidade de sofrimento se não seguirmos a Bíblia, e culpa por Jesus ter sofrido e morrido na cruz pelo pecado de toda a humanidade. Esses são os “atrativos” que a Igreja usou e usa, ainda, para manter e atrair fiéis. Em conseqüência dos dogmas e ensinamentos, levamos a vida para um caminho tortuoso cheio de culpa (transformando-a, conseqüentemente, em traumas psicológicos) para com Deus e para com o próximo. Um medo que reina e não permite viver uma experiência única, sendo sempre padronizada.

 

Deus é uma imagem poética sobrenatural, concebida, como toda poesia e música, em profundidade, mas suscetível de interpretação em vários níveis. As mentes mais superficiais e limitadas vêem nela o cenário local (entender literal ou a crença); as mais profundas, o primeiro plano da vacuidade (a base), e entre esses extremos estão todos os estágios do caminho da idéia de idéias de um agrupamento humano, que possui uma estrutura religiosa homogênea, para o essencial do ser local para o universal.

 

A mente humana com seus dois caminhos opostos, masculino e feminino, de ver o mundo, nas fases da vida, infância a velhice, com a sensibilidade e dureza, no seu infindável diálogo com o mundo, é a criadora e destruidora, escrava e senhora de todos os deuses.
Uma das maiores lições que aprendi com meus pais é que relacionamento com Deus é único. Se o relacionamento é único, é incomparável; então, não podemos seguir padrões ou uma única fonte. Dogmas e doutrinas foram criados como forma de manipular e controlar a humanidade, mas se olharmos além da alegoria e simbologia, se olharmos por nós mesmo, e obtivermos nossas próprias respostas e visões, estaremos muito além da compreensão comum dos ensinamentos bíblicos. Estaremos destacados, iluminados e muito além do que a maioria.

 

Não preciso de ninguém me dizendo no que crer e no que é certo e no que condenar. Não preciso de ninguém me indicando caminho a seguir, pois cada um vai ter sua própria interpretação de determinado caminho, sempre. O verdadeiro caminho para Deus e o Reino dos Céus está dentro de nós, e não em nenhum livro ou um código de regras, em uma igreja, em uma instituição ou nenhuma outra coisa do gênero. A verdade sempre esteve em nossos corações, basta nós olharmos dentro de nós mesmo e termos a coragem de abandonar conceitos e princípios anteriores. Temos sempre se estar abertos para nós mesmos e o caminho que podemos trilhar independente de outrem.

 

* Deus criou o mundo. Gênesis 1:1-2 fala que “No princípio Deus criou os céus e a terra, a terra, porém era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas”, ou seja, a criação original ficou temporariamente (duração não definida) sem forma e vazia, condição que logo foi mudada. A frase significa que a estrutura definitiva da Terra não estava completa e ainda se encontrava desabitada. A palavra ‘abismo’ pode, provavelmente, ser uma alusão às águas que cobriam a Terra. ‘Pairava’ sugere uma idéia de proteção e participação de Deus na obra. Ou seja, a comprovada teoria da evolução juntamente com a obra de criação de Deus, uma alusão, uma alegoria. Assim segue Gênesis e as Escrituras.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s